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Dor
Sobre a dor, mas que dor você sente? Essa taça de vinho vai servir para alguma coisa depois. A dor é real ou imaginária, não há diferença, ambas a conduzirão para a aniquilação. A morfina? Pararei de usá-la quando a Guerra acabar, ademais, há sempre o Câncer...sim, onde quer que eu esteja, numa primeira classe de um avião, em Nice, na cabine de um cruzeiro ou na masmorra da incredulidade que é sua visão de Sacerdote cínico, acrescento que a Boemia...sim, a auto-mutilação acontece, sua fealdade é incrível, às vezes, pode-se ter um caco de cristal nos lábios, os de cima e os de baixo, mas isso é lugar-comum. Sinto mesmo por esses dedos impotentes para ser uma pianista célebre, digo isso cínica- e pleonásticamente, pois todos os pianistas célebres são pianistas...vc inverteu as coisas e ai deu tudo errado, quis dizer que se é ou não pianista, não se pode qualificá-los em bons ou não, todo pianista é um bom pianista, assim como todo artista é um bom artista, para me fazer entender um pouco, mas quanto à celebridade, aí é algo obscuro, dê mais uma dose, pois tenho dores, aliás por que não morri ao invés de usar essa echarpe; ademais, nessa idade... sim, mesmo velha ela possuia o poder da vaidade, que a fazia uma mulher de uma boniteza austera como sua voz e aquele cigarro, sem falar na Morfina, mas ela não queria ser perdoada por suicidar-se, não queria perdão algum, apesar de ser uma beata, tinha os olhos vidrados e cantava uma canção numa voz roufenha, sim, fôra por tempo solista de um Teatro célebre, muito célebre, também não negou que dançou can-can e tango; veja, a questão do suicídio é na verdade bem simples, quero que o suicídio seja a aniquilação da metamorfose, e não me suicidarei com remédios, quer mais um cigarro? Eu sou de um tempo em que se usava broche, as mulheres da minha classe os usavam, mas quanto aos berloques...mas seu prazer?o que fazer para tirá-la do confinamento daquela velha fazenda? É melhor você usar heroína, porque tem projetos de se tornar uma. Mas, tente-me me explicar essa dor...Ouça, eu não existo há tempo, por assim dizer, não coloque a carroça na frente dos bois. Você não será nunca uma personalidade. Quanto a mim, sei que há a dor, é forte e lancinante, por vezes, sei que meu corpo já está se decompondo. Minha mente funciona, sei de datas, sei das minhas reminiscências, mas não sei nada que possa fazê-lo existir, mesmo sem dor. Qual dor?! Dor, embora haja muitos sentimentos que por covardia assim o denominamos, dor só há uma, e você descobrirá o quê. É uma questão de tempo, sempre de tempo, mas também de acordos e de moralismos que fomentam em gente o gozo de fazer inexistir um homem, uma mulher, uma criança, enfim, uma Ideologia. A dor é inominável e esse sucedâneo é mais afim à Estética que à Linguística...Mais uma dose, por favor.
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