Sabe, um dia desses pensei que eu não fosse mais eu. Estando na cama vi meu rosto sobre o seu ombro, talvez o vento tenha soprado muito e a noite estava fria; não sabia se era noite ou dia ou fosse o que fosse eu senti profundamente falta de mim mesmo, senti uma constricção e a notícia invadiu-me sem mais aquelas: não há jeito para uma recriação, não entendo porque dizem que se vai criando, vai-se contruindo, vai-se superando; mas a vida, essa que imagino como de sonhos e aspirações, quanto a ela não seria ingênuo de crê-la minha, pois há muito que já não existe tudo.
Por que não segui seus passos, meus passos de incrédulo. Talvez tenha descoberto um dia que a intoxicação da alma e o descascar da pele do rosto ( do rosto, da face!) eram o corolário das minhas vontades doidas de ser uma quimera, ou melhor, ser assim mesmo, para ser. Devo te dizer, sinto uma necessidade imensa de dizer que hoje fui a um lugar que seria aprazível se eu existisse, mas sem dúvidas era pitoresco, o vento gélido e uma chuva fina, bem fina e um mar cinzento. Eu sei que meu avô nadava por ali quando havia poesia em mim que já não era lá, ou antes era sim, era até ¨feliz¨, apesar de sentir medo de um dia ter medo demais. Sabe quando você não é mais você de hoje, mas o de amanhã e o de alguns anos muitos do passado. Nós seremos o tempo. Há a angústia e ela é aterradora e como a morte, para me fazer entender, despersonifica. Você nunca usou LSD, eu também não, mas o corpo pode ir se desmanchando. Meu corpo daquele dia está se desmanchando. Quando eu fui eu?
Sentados na praia pensávamos que um dia sairíamos daqui desse Inferno e eu pensava que a vida era mais fácil porque eu beijava muito e falava outras línguas e já tinha viajado, Hoje, por que essa miséria toda, meu Deus?

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